Consultei mais um profissional e recebi as mesmas sugestões de benefício incerto. Não reconhecem espontaneamente o caráter experimental ou quase experimental dessas recomendações. Estou começando a me convencer de que, se não utilizar, poderei sentir culpa ou, ao menos, uma "pulga atrás da orelha".
No entanto, quero discutir aqui um aspecto adicional, relativo à expressão que escutei nesta última consulta, após meus questionamentos sobre níveis de evidência e graus de certeza:
- "Quer que se reconheça a incerteza, está bem, reconheçamos. Mas não estou sugerindo mega doses de nada e nem os mais controversos na relação com risco. Mal não irá fazer! Então será que você não está complicando as coisas mais do que o necessário?".
Até certo ponto, entendo essa perspectiva, especialmente em alguns contextos individuais. Razão pela qual considero até utilizar uma fórmula dessas com vitaminas, minerais e antioxidantes. Ou pelo menos eliminar estas questões de meus critérios para escolha profissional. A maioria dos médicos parece abordar a situação de maneira semelhante. Posso então utilizar polivitamínico para minimizar culpas. Ou mentir que estou utilizando. Enchi o saco já. Há, de fato, muita coisa mais importante em jogo....
A probabilidade da otimização medicamentosa sem invenções arrojadas determinar, no meu caso, com a maioria das intervenções já oferecidas, algum dano relevante é sim muito baixa.
No entanto, do ponto de vista sistêmico, a discussão não é tão simples:
"Resolvi adiar meu sonho de ser mãe em prol da estabilidade financeira. Hoje, tenho 29 anos, sou advogada e estou casada há 3 anos. Conquistei a tão sonhada 'estabilidade' e há um ano e sete meses tento engravidar - sem sucesso.
...
A tão sonhada estabilidade financeira e emocional desapareceu. Só de remédios e de tratamento gasto uma pequena fortuna por mês. Já estou há muito tempo no vermelho".
O conteúdo acima é do livro Por Que a Gravidez Não Vem, de Cláudia Collucci.
Embora a reprodução assistida possa ser viabilizada pelo SUS, na prática, o processo é extremamente difícil e alguns medicamentos de alto custo não são cobertos. Convênios não cobrem reprodução assistida.
Se desejarmos deixar o SUS de lado na discussão, de qualquer forma, ela não deixa de ser uma questão de saúde pública. Como bem é lembrado na obra de Collucci, "a procriação é um direito reconhecido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e corroborado pela Constituição Brasileira. Faz parte dos que os juristas chamam de piso vital mínimo".
Na medida em que, independente do SUS, a infertilidade é uma questão de saúde pública, algumas reflexões merecem ser feitas:
Em média, um novo ciclo completo de fertilização custa cerca de 25.000 reais - o processo de FIV muito especificamente e despesas adicionais indispensáveis como com anestesistas. Se nós mulheres formos incorporar todas as sugestões de "intervenções satélites" que tenho recebido, gasta-se fácil mais 5.000 reais. Se formos avançar em sugestões que já deram para amigas minhas de avaliação de microbiota endometrial, aplicação de HCG intracavitária antes da transferência de embrião, entre outras, chega-se fácil a mais 10-15.000 reais. Você consegue perceber como isto pode favorecer um ambiente altamente elitista e, portanto, INÍQUO? O salário mensal de um professor da rede municipal da minha cidade é algo em torno de 2800 reais.
Lembrem do conceito de iniquidade para a TAKE HOME MESSAGE de hoje:
