quarta-feira, 29 de junho de 2022

Horrores nutricionais no campo da Saúde Reprodutiva

Já mencionei no Blog que sou nutricionista. Apesar de manter de um blog anônimo, por razões que também já expliquei, minhas amigas mais próximas sabem dele. Recentemente, uma delas viabilizou encontro com uma amiga sua que eu não conhecia e que saiu horrorizada de consulta com nutricionista em famosa clínica de infertilidade da nossa cidade. Saímos as três para tomar um café...

Juliana (nome fictício), que é médica e conhece o biossistema científico, descreveu a consulta com nutricionista, que, na verdade, fazia parte de uma série de consultas obrigatórias - sessões particulares com um custo de 300 reais cada. O cliente dessa clínica não pode escolher seu próprio nutricionista com a discurso de serem lá especialistas em infertilidade e que "só assim conseguem assegurar excelentes resultados". 

Alguns trechos da história de Juliana me chamaram atenção:

Juliana: -- "Por alguns minutos, ela discorreu sobre a importância do Ômega 3".

Eu, ainda sem plena noção da dimensão da coisa: -- Sim, deve ter sugerido comer peixes".

-- "Não, não, depois discorreu sobre os riscos do mercúrio presente nos peixes".

Aí eu já me situei bem. Entendi onde a questão iria chegar:

Se peixe é mocinho...

Mas também é vilão...


A solução vem em cápsulas! Claro!


Juliana continuou descrevendo a catequização que recebeu sobre o inimigo Glúten, sem que ninguém do casal tivesse Doença Celíaca ou qualquer coisa que apontasse nesse sentido ou da "sensibilidade ao glúten". Interessados em ler mais sobre o tema podem fazê-lo aqui

Mas o ápice foi quando a nutricionista mencionou uma "pegada de conhecimento milenar chinês" e sugeriu que a mulher do casal evitasse alimentos frios: "o útero não gosta". Para atingir a meta, que salada, antes bastante elogiada, fosse consumida sempre com algo quente junto. E sem hortelã que esfria mais. 😒

"Alguns pacientes meus têm experimentado escalda-pés enquanto comem, neste inverno pode ser muito gostoso". Fosse isto realmente importante (clinicamente relevante), sugeriria a minhas amigas interessadas em ter filhos que se mudassem para o nordeste. Ridículo! Será que nunca escutaram falar em homeostasia?! Pior que, se isto chegar nessa gente, elitistas como são, periga dar a ideia de filiais no nordeste e o slogan "vamos junto com você onde a fertilidade borbulha". 😒

Segundo Juliana, a questão de "limpar o corpo" foi mencionada várias vezes, entre outras coisas que sujam é a nossa relação com as comidas.

E lembram daquela questão de colocar a culpa no paciente que discutimos em postagens anteriores? Juliana mostrou receita com sugestão de que o marido tomasse suplemento a base de Mucuna pruriens. Trata-se de um fitoterápico muito conhecido por ser afrodisíaco e [dizem também, né] tratar disfunção erétil e melhorar qualidade do espermatozóide. Na breve anamnese feita pela médica da clínica, o casal foi questionado sobre libido e qualidade das relações sexuais. Negaram qualquer problema. Mas essa turma prefere acreditar que o casal deve estar mentindo, afinal de contas tudo no mundo deles é controlável, para todo problema há uma solução. Não deu certo no fim? Obviamente o casal não deve ter colaborado: "o cara aquele tinha cara de quem toma mais de 100ml de café, né?", posso até imaginar as conversas. 😒

Para mim, já basta! Está explicado ainda "nutricionistas funcionais" que dizem tratar COVID com nutrição apenas (incluindo suplementos diversos, é claro)!

E a clínica que Juliana foi é uma estrutura liderada por médicos. Fazem parte, então, do enorme biossistema médico que explica o caos durante a pandemia. E pode até existir profissional da clínica que aponta o dedo para os adeptos do Kit COVID. Esta é apenas mais uma característica do sistema: ao mesmo tempo que anti-científico é sempre o outro, é a soma dos comportamentos invariavelmente nada auto-críticos que leva ao resultado final: os Kit's COVID, e os Kit's Fertilidade.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Bom dia, galerinha! Saindo de mais uma consulta!

Na experiência de hoje, a conclusão é de que etapas haviam sido puladas. É necessária avaliação diagnóstica adicional. Entre outros exames, foi solicitada dosagem sérica de alumínio.  

Não tenho fatores de risco ambientais, ocupacionais ou clínicos para acúmulo de alumínio. Conhecendo um pouco o fantasioso cenário, perguntei se não poderia partir direto para "soluções", se é que já não as adotava:

Já não tomo refrigerantes. Então já tenho pouco contato com bebidas em latas de alumínio. Evito há muito tempo ultra-processados. Raramente recorro a marmitas em embalagens de alumínio, mas estarei atenta para jamais acontecer.

Propus investir mais em produtos orgânicos também.

Fui ainda mais longe e propus revisar em casa os armários da cozinha e afastar eventuais panelas e utensílios de alumínio. Disse que eliminaria os desodorantes também. Pensei em mentir ainda em relação ao batom, mas acabaria esquecendo. Se por falta de opção escolhesse este profissional aqui, acabaria retornando com algum bem chamativo. Afinal, não dispenso meus batons!  

No que dis respeito às vacinas, lembrei de suas falsas polêmicas também. Entretanto, sequer cogitei incluir a questão na minha lista de "mentiras do bem". A questão da vacinas já ultrapassou todos os limites. É um assunto que precisa ser levado extremamente a sério dos dias de hoje.  

Apesar de tudo, não adiantou: o profissional não abriu mão da dosagem de alumínio. Estamos quase em julho, mas vou continuar buscando outro médico. Complicado é que corro contra o tempo...