É fundamental compreender que pouco existe o grupo dos que interpretam evidências sempre bem. Ou o grupo dos que são inabalavelmente racionais. Em vez disso, há uma variedade de reações que oscilam entre a clareza e a confusão, entre o racional e o irracional, muitas vezes dentro da mesma pessoa, em um processo dinâmico e complexo.
As razões pelas quais caímos em armadilhas passam por expectativas, paixões e necessidades até mesmo inconscientes, e acometem de usuários a fornecedores de serviços profissionais. No caso dos pacientes por exemplo, tornar-se um favorece naturalmente ilusões e fantasias, e, consequentemente, busca por ilusões e fantasias (ou maior receptividade a elas).
Li o livro 'Por Que a Gravidez Não Vem', escrito por Cláudia Colluci, destaque no jornalismo em saúde justamente por sua pegada racional. Seu trabalho tem sido de enorme relevância para ampliação de literacia científica. No entanto, quando esteve com a "pele em jogo" (o livro é também sobre sua experiência pessoal), foi bastante pouco crítica (do ponto de vista de análise dos fenômenos e das intervenções envolvidos no debate que impulsionou na obra sobre infertilidade). Funciona assim, é essencialmente humano.
Então, quando Colluci abordou o Citrato de Clomifeno para estimulação da espermatogênese, embora tenha sinalizado uma tal controversa, enfatizou um relato de caso anedótico para justificar tentativas. O livro é de 2003. Em 2007, revisão da Cochrane apontou que "there is not enough evidence to evaluate the use of anti-oestrogens for increasing the fertility of males with idiopathic oligo-asthenospermia". Podemos dizer no mínimo que, se o livro era para facilitar casais inférteis no estabelecimento de FOCO, a mensagem deveria ter sido mais assertiva.
Outro ponto é quando o livro aborda Tratamentos Alternativos. Ao trazer informações sobre Acupuntura, claramente doura a pílula com relatos de caso anedóticos e outras coisas do gênero. Há também descrição de como a técnica chinesa "funciona". Segundo ela, tudo é muito "promissor". Fato é que até hoje não se sabe se o tratamento é eficaz para infertilidade e, em parte, os discursos ambíguos estimulam uso ao mesmo tempo que desestimulam pesquisas mais aprofundadas sobre o tema.
Quando Collucci entra na minha área, dietas, cita benefícios de nutrientes específicos, como Vitamina C. Não existe, até hoje, qualquer comprovação de que uma estratégia com este foco específico, ou através de outro antioxidante, melhore desfechos reprodutivos clinicamente relevantes de mulheres "médias". Pode existir benefício em condições nutricionais específicas, que cursam com alterações nutricionais? Pouco importa! Porque, nesses outros cenários, de qualquer forma, a discussão costuma ir muito além da apresentação ao paciente uma "pílula mágica" com o nome de um nutriente ou vitamina isoladamente.
Ao oferecerem um cardápio imenso de possibilidades tal como um grande e único Menu Degustação do qual não se deve abdicar de nada, porque parece tudo igual, promissor (seja como no livro Por Que a Gravidez Não Vem, seja através de consultas/prescrições como da postagem anterior), a pessoa não conseguindo "comer tudo", não tende a restar culpada? Imagine então a culpa de uma desprovida de recursos financeiros para o combo todo, mas que até os teria para elementos do cardápio em separado... Ao perceber que não vai ficar com nada do menu pela simples falta de alguém que a auxilie na avaliação das partes, seguida de graduação de valor / hierarquização das potenciais escolhas, estaria sendo vítima de iniquidade, não? Por restrição de ACESSO!
Parece uma analogia boba esta acima, mas é importante reconhecer que a saúde e seus resultados estão frequentemente entrelaçados com questões socioeconômicas. Uma sessão de acupuntura pode custar 200 reais, em meio a todo um cenário já bastante oneroso (8 sessões = 1600 reais). Tomemos agora de exemplo a minha condição nutricional, física e social: É muito boa! Tenho o privilégio de ter tempo para cozinhar. Tenho o privilégio de poder comprar frutas e legumes frescos. De saber cozinhar e o que é mais saudável. Tenho o privilégio de ter tempo, e capacidade física e mental para me exercitar. Para mim, um corpo saudável é mais fácil. Não bastasse, sou privilegiada geneticamente. Entretanto, voluntariamente ignoramos esses privilégios ou os criamos: no caso das dietas, acabamos injustos com as pessoas se os meios são impraticáveis e as pressões por resultados não adequadamente calibradas. Serão geradas culpas onde não há exatamente culpados. No caso da fertilização, se criarmos privilégios desnecessários, orientando nossas ações para ricos, como quando ignoramos informações a respeito da hierarquia das evidências e das opções adiante disto, como quando ignoramos que os recursos são finitos, é inevitável que as coisas virem um jogo de culpa moral e de cobranças injustas, perpetuando ainda desigualdades.